Estrada Monumental

A Ponte Monumental, atual Ponte do Ribeiro Seco, aqui num registo sem data. Colorido com IA.

A Estrada Monumental tem uma extensão de 6,5 quilómetros. Começa junto à Avenida do Infante, a nascente, com a Ponte do Ribeiro Seco e prolonga-se até ao final da Ponte dos Socorridos, à entrada de Câmara de Lobos, a poente, tendo seguimento com a Estrada João Gonçalves Zarco.

por: Paulo Camacho

Tudo começou com o projeto da ponte, que, inicialmente, se chamou Ponte Monumental para ligar as duas margens do Ribeiro Seco, no Funchal.
Corria o ano de 1835 quando o governador da Madeira, Luís da Silva Mouzinho de Albuquerque, fez o projeto para que fosse construído uma grande ponte e uma estrada para poente.

A obra deveria constituir um monumento à memória de D. Pedro IV, vencedor da causa liberal.
Daí o nome Monumental, para a ponte e para a estrada.
De início, a ideia era construir uma ponte suspensa, mas tudo mudou quando Mouzinho de Albuquerque deixou a Madeira. Tudo voltou à estaca zero.
Só em 1848 começaram, finalmente, os trabalhos para a grande obra, retomada pelo governador José Silvestre Ribeiro, que também iniciaria, em 1846, o serviço da iluminação pública do Funchal e viria a notabilizar-se pelas grandes reparações das estradas e dos edifícios do Estado,
O primeiro passo foi a ponte, a 6 de março. No final do ano estava quase concluída.
A 5 de junho desse mesmo ano arrancou a construção da ponte sobre a Ribeira dos Socorridos.


No entanto, a estrada que daria continuidade às duas pontes ficou apenas iniciada. Foi uma obra por fases, que demorou anos até à sua conclusão.
A estrada avançaria para poente, atravessando São Martinho, seguindo pela faixa litoral, atravessando cursos de água e quebradas até chegar a Câmara de Lobos.

De referir que a Estrada Monumental conheceu anteriormente outra designação, a de Henrique Vieira de Castro, banqueiro no Funchal.
The New Road foi outra designação daquele eixo viário. Mas não era esse o seu verdadeiro nome, antes a forma como os residentes ingleses, os visitantes e a comunidade britânica apelidava aquela ligação.

A designação “New Road” surge no livro 'Madeira: Old and New', de W. H. Koebel, publicado em Londres, em 1909.
Koebel escreve que havia uma estrada conhecida pelos visitantes ingleses como “The New Road”, descrevendo-a que se estendia “between the New Palace Hotel and the fishing village of Camara de Lobos” — isto é, entre o New Palace Hotel e a vila piscatória de Câmara de Lobos.
O autor salientava que era larga, relativamente plana e de superfície não empedrada, sendo utilizada para passeios a cavalo e pelos primeiros automóveis.
Um relato britânico de 1862 descreve a Monumental como uma estrada feita precisamente para proporcionar um bom local para exercício a cavalo, comparando-a à famosa Rotten Row, de Londres, o passeio aristocrático do Hyde Park.
Outro relato de viajantes descreve-a como uma espécie de “Rotten Row do Funchal”, destacando que era uma das poucas extensões verdadeiramente planas disponíveis na Madeira.
Por outro lado, um guia de 1901 chega a referi-la como a única estrada de macadame para carruagens, ligando o Funchal a Câmara de Lobos.

A estrada ficaria ainda mais famosa depois de Bernard Harvey Foster ter chegado à Madeira com a família no final de 1903. O seu automóvel, um 'Wolseley' de 10 hp, seria descarregado no Funchal a 21 de janeiro de 1904. Era o primeiro automóvel que circulava na Madeira e percorreu precisamente esta estrada.

Hoje, o 'Clube de Automóveis Clássicos da Madeira' recorda esse feito e organiza, todos os ano,s um passeio com automóveis clássico, entre o Funchal e Câmara de Lobos, e vice-versa.

O impulso

A Estrada Monumental não foi simplesmente uma estrada, antes uma das obras de infraestrutura que ajudaram a transformar o Funchal moderno. Antes dela, deslocar-se para oeste era muito mais difícil.
A nova estrada criou uma ligação terrestre contínua para poente, permitindo a circulação de pessoas, de mercadorias, a expansão urbana, crescimento do turismo, mais hotéis e circulação automóvel.
Por outro lado, a zona da Estrada Monumental transformou-se, ao longo dos séculos XIX e XX, numa das áreas mais importantes do desenvolvimento turístico da capital da ilha.

A relação entre o 'Reid’s Palace' e o desenvolvimento da Estrada também deve ser entendida no contexto mais amplo da transformação urbana e turística do eixo ocidental do Funchal, sobretudo a partir da segunda metade do século XIX.
O 'Reid’s Palace', inaugurado em 1891, inscreve-se na história do turismo madeirense como um equipamento pioneiro de luxo, orientado para uma clientela internacional.
A sua localização sobre a falésia, em proximidade direta com a Estrada Monumental, foi decisiva para reforçar a atratividade dessa zona.
A presença do hotel contribuiu para fixar ali uma imagem de prestígio, associada ao lazer, à estadia prolongada e a um urbanismo de vocação turística.
Assim, a estrada passou a ser mais do que uma infraestrutura de mobilidade, tornando-se um corredor de valorização imobiliária e simbólica.
Além disso, o Reid’s Palace funcionou como catalisador para a progressiva especialização da área em funções turísticas e residenciais de qualidade, favorecendo o aparecimento de hotéis, quintas adaptadas a usos de lazer, moradias abastadas e serviços associados à hospedagem.
Este processo é típico de eixos viários que deixam de desempenhar apenas uma função de ligação e tornam-se faixas urbanas em que o valor do terreno e a intensidade de usos aumentam em torno de um equipamento âncora. Daí que, do ponto de vista urbano, o efeito mais relevante foi a indução de novas formas de ocupação do solo ao longo da via.

A Estrada Monumental conheceu duas das mais marcantes discotecas do Funchal, Vespas, num edifício reutilizado junto à Ponte do Ribeiro Seco, e a Barbarella, no hotel Miramar. A primeira mudou-se, há muito tempo, para a Avenida Sá Carneiro. E, a segunda, fechou portas há imensos anos.
A nível de hotelaria, referência para o desaparecimento do emblemático hotel Madeira Palácio, que, depois de desativado muito tempo, foi reconvertido em apartamentos.
Atualmente, ao longo da sua extensão, a Estrada Monumental tem de tudo, desde ser o coração da hotelaria madeirense, o grande parque habitacional em edifícios de apartamentos, albergar o centro comercial Fórum Madeira.
Temos na Estrada Monumental os hotéis 'Pestana Miramar', 'Pestana Quinta Perestrello', 'Pestana Village', 'Belmondo Reid's Palace', 'Pestana Royal', 'Alto Lido', 'Florasol', 'Raga', 'Monumenta,', 'Vila Baleira Funchal', 'Monumental Plaza', 'Vidamar', 'Girassol', 'Baía Azul' e 'Orca Praia'.

Trabalhos de construção na Estrada Monumental, nas imediações do 'Reid's Palace Hotel', desconhecendo-se a data da fotografia. Colorido com IA.

Registo entre finais de 1902 e 1904. Atualmente esta casa deu lugar ao restaurante 'Tokos' e, mais à frente ao restaurante 'Casa Madeirense. Colorido com IA.

A Estrada Monumental entre 1887 e 1905. Podem ver-se pessoas a caminhar pela estrada e, à direita, o 'Cardwell's Hotel', o seu campo de ténis e a Ponte Monumental. Colorido com IA.

Registo entre 1889 e 1905, podendo ver-se a baía e cidade do Funchal a partir do sítio do Salto do Cavalo.
Em primeiro plano, está uma casa e terrenos cultivados, e em segundo plano, o sítio da Penha de França, a praia das Águas Doces e o Porto do Funchal, sendo que os ilhéus de São José e de Nossa Senhora da Conceição já se encontram unidos. Colorido com IA.

Harvey Foster e esposa, a 17 de maio de 1904, no seu automóvel na Estrada Monumental, 1904-05-17
Junto à traseira do carro está o motorista. Colorido com IA.

Carros de bois na estrada Monumental, junto à entrada do 'Reid's Palace Hotel, atual 'Belmond Reid´s Palace', num registo que se desconhece a data. Colorido com IA.

Um automóvel, aqui num registo de depois de 1907, sendo notório o vazio no edificado que era patente naquele início do século XX. Colorido com IA.

Esta fotografia das décadas 1920 a 1940, mostra a Ajuda e a Estrada Monumental nos arredores do atual centro comercial Fórum Madeira. Colorido com IA.

A Estrada Monumental, num registo posterior a 1930. Colorido com IA.

Neste registo de 1939, vemos, à direita, a 'Pensão Santos', em frente ao Reid's, que viria a ser demolida para o alargamento da Estrada Monumental. Colorido com IA.

A fotografia, de depois de 1930, mostra um automóvel. Colorido com IA.

Um edifício que ainda existe na Estrada Monumental, o 'Chalet Vicente', aqui num registo da primeira metade do séc. XX.
Uma nota para os cabos de rede elétrica que se podem ver sobre o eixo viário. Colorido com IA.

Vista da Estrada Monumental, para o lado nascente, a partir da 'Pensão Santos', em 1939. Colorido com IA.

Armazém de combustível 'BP' (Bristish Petrol) na Estrada Monumental, em frente ao 'Reids Palace Hotel', aqui num registo da década de 1950. Colorido com IA.

Esta imagem permite ver a Praia Formosa e a Estrada Monumental. Colorido com IA.

A Ponte Monumental, hoje Ponte do Ribeiro Seco, e o edifício, depois da ponte, onde iria nascer a discoteca Vespas. Colorido com IA.

A Estrada Monumental na sua parte final antes de chegar a Câmara de Lobos. Colorido com IA.

O emblemático Madeira Palácio, que tinha um serviço superior às cinco estrelas que ostentava. Colorido com IA.




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