Calçada de Santa Clara


Calçada de Santa Clara e o 'Reid's Santa Clara Hotel', aqui numa fotografia de antes de 1897, colorida com IA.
A Calçada de Santa Clara tem 220 metros de comprimento. Carateriza-se pela forte inclinação, em grande parte dela. Começa na Igreja de São Pedro e termina junto Universo de Memórias de João Carlos Abreu, nas Cruzes.
Deve o seu nome ao Convento de Santa Clara. 

por: Paulo Camacho

Na realidade, justifica-se plenamente, pois, reza a história, que as freiras possibilitaram o alargamento da passagem apertada entre os muros do convento e as hortas.
Desta forma, deixou de ser exclusivamente pedonal e tornou-se num espaço de passagem igualmente de automóveis. 

Fotografia de 1940 de Maria Augusta de Ornelas Frazão e Silva, sentada, com suas filhas e uma senhora no Palácio da Calçada (atual 'Casa-Museu Frederico de Freitas').

Nasceu a 9 de julho de 1898, casou com o capitão Carlos Wenceslau Frazão Sardinha, seu primo, a 1 de fevereiro de 1919 de quem teve três filhas: Teresa de Ornelas de França Carvalhal Frazão Sardinha (nascida a 1922-08-07), Maria Clara de Ornelas França Carvalhal Frazão Sardinha (nascida a 1923-12-10) e Maria Augusta de Ornelas de França Carvalhal Frazão Sardinha (nascida a 1926-03-10). Colorida com IA. 



A Calçada abrange dois espaços museológicos. Um deles é a 'Casa-Museu Frederico de Freitas', que apresenta coleções do advogado e colecionador madeirense Frederico de Freitas.
Trata-se de um edifício construído no século XVII, marcado pelas remodelações ocorridas no século XIX.
Um dos seus mais influentes proprietários foi Diogo de Ornelas de França Carvalhal Frazão e Figueiroa, agraciado pelo rei D. Luís, em 1871, com o título de visconde da Calçada e elevado a conde da Calçada pelo rei D. Carlos I, em 1890.
Sucedeu na administração do património e na posse do título o seu filho Eduardo de Ornelas Frazão, 2.º conde da Calçada, que ali também viveu com sua única filha, D. Maria Augusta de Ornelas Frazão, casada com o tenente José Sotero e Silva.
Após o falecimento de D. Maria Augusta Frazão, ocorrido a 3 de maio de 1940, com 68 anos de idade, os restantes proprietários intentaram vender todo o recheio móvel da casa, posto em leilão entre 14 e 30 de março de 1941 através da Agência Chagas.
Em relação à posse do imóvel, no mês seguinte, por escritura de doação, de 30 de abril de 1941, lavrada no cartório do Dr. Frederico de Freitas, o tenente José Sotero e Silva transferiu toda a parte que lhe cabia na casa da Calçada para a sua filha Maria Augusta de Ornelas Frazão da Silva Sardinha e as suas três netas: Maria Teresa, Maria Clara e Maria Augusta, as quais decidiram, como viviam em Lisboa, arrendar o edifício ao Dr. Frederico de Freitas, seu advogado, que ali fixou residência definitiva entre 1941 e novembro 1978.
Em 1979, o Governo Regional da Madeira adquiriu o Palácio da Calçada por via de utilidade pública para ali manter o notável legado artístico doado à Região, por disposição testamentária do Dr. Frederico de Freitas, abrindo o espaço em 1988 com o nome de Casa-Museu Frederico de Freitas.
Contudo, a ligação unicamente a Frederico de Freitas peca pela omissão do seu passado à família Diogo de Ornelas de França Carvalhal Frazão e Figueiroa e sucessores.

Convento de Santa Clara

Nesta rua fica, também, o Convento de Santa Clara, construído no final do século XV.
O Convento de Santa Clara foi erguido numa saliência rochosa com vista sobre a baía, junto à residência dos seus fundadores, João Gonçalves da Câmara, 2.º capitão do donatário, e D. Maria de Noronha, a Quinta das Cruzes. 
O primeiro convento feminino da ilha começou a ser construído em 1492, ficando concluído entre 1495 e 1497. 
Submetido à clausura e à 2.ª Regra de Santa Clara em 1496, o imóvel acumulou forte património e riqueza através de dotes, rendas, isenções fiscais e exploração de extensas terras de cana-de-açúcar e vinha na Madeira.
Com a extinção das Ordens Religiosas em 1834, o convento manteve-se ativo até à morte da última freira, a Madre Amália do Patrocínio, em 1890, ano em que os bens transitaram para a Fazenda Pública. 

A partir do final do século XIX, o espaço conheceu diversas ocupações: albergou o colégio da Associação Auxiliar das Missões Ultramarinas (1896-1910) e, após a implantação da República e a expulsão das religiosas, as suas instalações foram divididas entre a Câmara Municipal do Funchal, a Misericórdia e o Auxílio Maternal. 
Sem que esses projetos fossem concretizados, o imóvel regressou à posse do Estado e acolheu novamente as Irmãs Franciscanas Missionárias de Maria a partir de 1927, que ali instalaram uma creche em 1929. 
O complexo, classificado como Monumento Nacional desde 1940, beneficiou de sucessivas obras de restauro e consolidação ao longo do século XX.

Do ponto de vista arquitetónico, ocupa uma área total de 8,5 mil m² e junta estilos que vão do Tardo-Gótico e Manuelino ao Barroco e Neoclássico.
A igreja abrange a primitiva Capela de Nossa Senhora da Conceição, fundada por João Gonçalves Zarco como jazigo familiar, destacando-se o portal gótico em pedra branca, o revestimento com azulejos hispano-mouriscos do século XVI nos pavimentos dos dois coros, os retábulos em talha e a alta torre com cúpula oitavada.
No interior, encontram-se várias capelas ornamentadas, como a da Ressurreição e a de São Gonçalo de Amarante, além de um valioso espólio de pintura, escultura, azulejaria e ourivesaria dos séculos XVI a XVIII.
A musealização e recuperação global das áreas visitáveis concretizou-se através do projeto «Reabilitação e Restauro do Convento de Santa Clara – Monumento Visitável», promovido pela Secretaria Regional de Turismo e Cultura em parceria com o Laboratório José de Figueiredo e o Museu Nacional do Azulejo, com cofinanciamento comunitário pelo programa Madeira 14-20.

Outros museus

A Calçada de Santa Calara faz igualmente fronteira com outros três espaços museológicos, a começar 'Museu de História Natural do Funchal', uma instituição de caráter científico e cultural que proporciona o conhecimento da fauna, flora e geologia do arquipélago da Madeira; o 'Universo de Memórias de João Carlos Abreu', instalado numa casa de finais do século XIX, responsável pela conservação, manutenção e exposição ao público de todos os bens doados à Região Autónoma da Madeira, por João Carlos Abreu, jornalista, escritor, gestor, diretor hoteleiro e Secretário Regional do Turismo e Cultura, entre 1984 e 2007, estando também vocacionado para acolher e desenvolver ações de caráter cultural; e a 'Quinta Museu das Cruzes', uma típica "Quinta Madeirense", que disponibiliza uma vasta coleção de objetos de arte e antiguidades que abrangem o período entre o século XV e a primeira metade do século XX. O espólio inclui mobiliário (português e estrangeiro, com destaque para o inglês), pintura, escultura, cerâmica, ourivesaria, joalharia, glíptica, desenhos, gravuras, tapetes, colchas e miniaturas. 
Nos jardins encontra-se um Orquestrofone (instrumento de reprodução mecânica datado de 1900) e um Parque Arqueológico com elementos escultóricos produzidos entre os finais do século XV e o final do século XIX.
Com mais de 500 anos de história, a Quinta foi a última residência de João Gonçalves Zarco, 1.º capitão do donatário do Funchal. A primitiva casa foi ampliada pelo seu filho, João Gonçalves da Câmara, recorrendo aos mestres que trabalhavam na obra do Convento de Santa Clara.
No século XVII, a propriedade passou para a família Lomelino (cujo antecedente genovês, Urbano Lomelino, se fixou na ilha em 1476). Até ao final do século XIX, esta família realizou profundas transformações no imóvel, como a edificação da arcaria principal, da capela e da estrutura dominante da casa.
Em 1946, César Filipe Gomes doou a sua coleção de antiguidades e arte à Junta Geral com a condição expressa de se instalar um museu na Quinta das Cruzes. Assim, o Estado adquiriu o imóvel à família Miguéis em 1948 para concretizar a instalação do museu de artes decorativas, cujas coleções foram posteriormente enriquecidas pelo espólio de João Wetzler, outras doações e aquisições.

A Calçada está ligada a duas igrejas, a de São Pedro e a de Santa Clara.

Entrada principal do Reid´s Santa Clara Hotel, aqui numa fotografia de antes de 1904. Colorida com IA.
Referência à existência, no topo da íngrime Calçada, do edifício do 'Reid's Santa Clara' que foi um importante hotel do Funchal, no final do século XIX, adquirido pela família Reid em 1867.
Hoje, o edifício histórico pertence à 'Santa Casa da Misericórdia do Funchal', funcionando como lar de idosos e serviços públicos.
Tornou-se num dos hotéis mais afamados da ilha na década de 1880. Ellen M. Taylor considerou-o, em 1882, o "hotel par excellence". Nele ficou instalada, com o piano, na sua visita à Madeira desse ano. Esta viajante inglesa publicou, em 82, 'Madeira: Its Scenery and how to See It. With Letters of a Year's Residence and Lists of the Trees, Flowers, Ferns, and Seaweeds', um guia de viagem extremamente detalhado.
Mais abaixo, existia no início do século XX a 'H. Payne', uma casa de bordados. Mais tarde, op imóvel seria o Externato Nuno Álvares, mais conhecido por 'Caroço'.

Fachada principal da casa de bordados 'H. Payne' na calçada de Santa Clara, aqui numa fotografia de 2 de maio de 1921. Colorida com IA.

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